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Mundo Livre S/A celebra legado do Manguebeat no palco da Casa Natura Musical

O Manguebeat foi um movimento cultural surgido no Recife, em Pernambuco, no início dos anos 1990, que buscava romper com a estagnação cultural da cidade e conectar a tradição pernambucana às manifestações da música contemporânea internacional.

Mundo Livre S/A celebra legado do Manguebeat no palco da Casa Natura Musical
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O Manguebeat foi um movimento cultural surgido no Recife, em Pernambuco, no início dos anos 1990, que buscava romper com a estagnação cultural da cidade e conectar a tradição pernambucana às manifestações da música contemporânea internacional. No entanto, a proposta não era abandonar a cultura local em busca de uma sonoridade “moderna”, mas justamente promover o encontro entre as tradições pernambucanas e linguagens contemporâneas, como rock, punk, hip-hop, funk e música eletrônica.

Além do aspecto cultural e estético, havia uma forte dimensão social em torno do Manguebeat. Bandas e artistas ligados ao movimento abordavam em suas obras temas como pobreza, desemprego, violência, desigualdade social e degradação ambiental — questões que faziam parte da realidade da capital pernambucana naquele período.

Quando se fala em Manguebeat, é comum que o legado de Chico Science e Nação Zumbi seja o primeiro a ser lembrado. Porém, outro nome teve papel fundamental no desenvolvimento da cena: o Mundo Livre S/A.

Formado em 1984, em Recife/Jaboatão dos Guararapes, por Fred Zero Quatro, o grupo foi um dos pioneiros da cena pernambucana na tarefa de unir diferentes referências musicais. A sonoridade do conjunto transitava por elementos aparentemente distantes, como punk, rock, samba, MPB e samba-rock, ao mesmo tempo em que suas letras apostavam em uma abordagem ousada, provocativa e engajada. Uma combinação bastante singular para a época e que ajudaria a pavimentar o caminho para o surgimento do Manguebeat.

No último sábado (29), o conjunto retornou à capital paulista para um show especial em celebração ao seu legado ímpar e extremamente original dentro da música brasileira. A apresentação aconteceu no palco da Casa Natura Musical, espaço conhecido por receber diferentes vertentes musicais, do mainstream ao circuito independente.

Em um set com mais de uma hora de duração, o grupo revisitou alguns de seus principais sucessos, incluindo clássicos como “Meu Esquema”, “Musa da Ilha Grande”, “Livre Iniciativa” e “O Mistério do Samba”, além de uma versão de “Mexe Mexe”, de Jorge Ben Jor. Entretanto, o grande destaque do repertório ficou por conta de “Guentando a Ôia”, álbum que completa 30 anos em 2026. Ao executar faixas desse trabalho, como “Pastilhas Coloridas” e “Computadores Fazem Arte”, foi possível perceber uma faceta mais pesada do grupo, marcada por forte influência do punk rock e que caminhava em uma direção diferente daquela apresentada em alguns de seus maiores sucessos, nos quais os instrumentos de sopro, metais e ritmos mais dançantes ganham maior protagonismo. Apesar de a casa não estar completamente lotada, o público correspondeu e participou ativamente da apresentação, dançando ao som das músicas — ora com passos de samba, ora de forró e, nas faixas mais próximas do punk, até com direito a bate-cabeça.

No centro do espetáculo, Fred Zero Quatro protagonizou um show à parte e mostrou por que permanece como um dos grandes frontmen da cena nordestina. Além de interagir constantemente com a plateia e brincar com o público, o vocalista compartilhou histórias sobre a trajetória do grupo e relembrou experiências vividas ao lado de Chico Science, quando ambos integravam a efervescente cena underground do Recife.

Sem dúvidas, o Mundo Livre S/A proporciona um curioso espetáculo ao vivo, capaz de transitar por diferentes sonoridades e despertar sensações variadas em seu público. Décadas após o surgimento do Manguebeat, a banda demonstra que sua mistura de referências continua encontrando espaço e mantendo vivo um dos capítulos mais originais da música brasileira.